IEPEC - A inserção do Médico Veterinário e do Zootecnista na agropecuária
Entrevistas: A inserção do Médico Veterinário e do Zootecnista na agropecuária
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Fonte: IEPEC

Fonte: CRMV-PR
O IEPEC tem o prazer de entrevistar o Dr. Masaru Sugai, Presidente do CRMV-PR. O Dr. Masaru fala sobre a inserção do Médico Veterinário e do Zootecnista na agropecuária. 

1. Quais as principais contribuições que o CRMV pode dar à sociedade no momento atual, considerando Médicos Veterinários e Zootecnistas?
 
A atribuição principal do nosso Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná é fiscalizar o exercício profissional de Médicos Veterinários e Zootecnistas no sentido de assegurar à sociedade a garantia da qualidade dos produtos e serviços. Dentro dessa ótica, efetuamos a fiscalização em empresas, consultórios, clínicas, hospitais veterinários, laticínios, frigoríficos, casas agropecuárias, supermercados, biotérios, escolas, entre outras. O Estado do Paraná possui mais de 5 mil pessoas jurídicas atuantes e nestes locais os responsáveis técnicos trabalham para garantir a qualidade dos produtos e serviços que são ofertados à sociedade. Esta é a grande contribuição que toda entidade de classe de fiscalização profissional, como o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná, fornece à sociedade. Por lei devemos assegurar ao consumidor e principalmente aos nossos pacientes, os animais, que não sabem falar, escrever e não podem denunciar, de que estes profissionais realmente primam pela qualidade desejada, tanto de produto quanto de serviços.
 
2. Quais os principais meios de atuação do Conselho Regional em relação aos profissionais da Zootecnia e Medicina Veterinária?
 
Temos tratado como premissa básica que antes de punir temos de orientar. Uma das estratégias que temos trabalhado muito são realizações de eventos tanto de cunho técnico como cursos quanto de orientação como seminários no sentido de promover uma capacitação, uma orientação, padronização dos procedimentos junto aos profissionais. É muito mais barato prevenir que remediar e certos erros não são possíveis de remediar, já que se tratam de seres vivos. Dentro deste conceito, temos realizado muitos trabalhos de orientação, inclusive junto às universidades. Tenho ministrado muitas palestras junto com outros diretores, conselheiros, delegados para que os estudantes, futuros profissionais, saiam das universidades conhecendo um pouco mais os aspectos legais da nossa profissão, pois infelizmente na graduação fala-se muito pouco no aspecto da legalidade da nossa profissão, tanto na Medicina Veterinária como na Zootecnia. 
 
Nesta questão legal entram os códigos de ética, instrumentos que o conselho utiliza para julgar se o profissional é ético ou não. A proposta do Conselho é realmente trabalhar em uma linha de orientação para evitar os erros, para que o profissional esteja cada vez mais informado e capacitado para que cumpra o seu exercício profissional da melhor forma possível, com profissionalismo, respeito e seriedade. Caso haja necessidade, logicamente, teremos de punir os profissionais que cometerem erros.
 
Fonte: IEPEC
3. Como estão inseridos, atualmente, na agropecuária, o Médico Veterinário e o Zootecnista?
 
São os dois profissionais que possuem o maior envolvimento no processo de desenvolvimento do agronegócio ou da agropecuária do Paraná e do Brasil. O Médico Veterinário faz parte de todos os elos da cadeia produtiva desde o insumo até o consumo final. O Zootecnista está presente também, mas o Médico Veterinário está obrigatoriamente presente em todos os elos, desde insumos na produção de vacinas e medicamentos. Nas indústrias de rações, nas firmas de planejamento, crédito rural, produção dentro da propriedade também estão inseridos os Zootecnistas. 
 
Uma atividade privativa do Médico Veterinário é a inspeção dos produtos de origem animal, o Zootecnista também está presente em algumas indústrias. Na área varejista de supermercados também há responsáveis técnicos que atuam para garantir ao consumidor a compra do produto de qualidade. A inserção dos dois profissionais nas cadeias produtivas é fundamental, juntamente com outros profissionais como os Engenheiros Agrônomos, Técnicos Agrícolas, Engenheiros Florestais entre outros. Junto com todos os profissionais das ciências agrárias e muitas vezes da própria ciência da saúde temos um trabalho fundamental no desenvolvimento das cadeias produtivas e no agronegócio do Paraná e do Brasil.
 
4. O que o senhor acha do grande número de faculdades e o mercado nessa área?
 
No Paraná nós temos 19 cursos de Medicina Veterinária e já está abrindo o vigésimo em Realeza e temos 10 cursos de Zootecnia. O Paraná talvez seja um dos Estados que tem o maior número de faculdades tanto de Zootecnia quanto de Medicina Veterinária proporcionalmente ao número de habitantes. São Paulo possui muito mais faculdades da área, mas a população de São Paulo também é muito maior. 
 
5. O piso salarial está sendo aplicado pelas empresas que empregam Médicos Veterinários e Zootecnistas? 
 
A lei que estabelece o piso salarial do Médico Veterinário é a Lei Federal 4.950-A/1966, só que esta lei se aplica somente para quem possui relação de emprego pela CLT. Quem é estatutário ou autônomo não tem obrigatoriedade de aplicação da lei. Espero que estejam aplicando, e aquele que não estiver aplicando o profissional deve recorrer na justiça para requerer seus direitos, porque isso é assegurado por uma Lei Federal. O Zootecnista não está amparado pela lei, não possuindo lei para o piso salarial. 
 
Tem muitas relações de Estatutários que são instituições públicas como Prefeituras ou o Governo do Estado que não possuem obrigatoriedade de cumprimento da lei e não pagam este salário mínimo. Às vezes, colocam alguns abonos e gratificações para chegar próximo ao piso, que hoje está em torno de R$ 4.500,00, e dificilmente pagam este valor.
 
Fonte: Divulgação
6. Quais as áreas da Medicina Veterinária e da Zootecnia que oferecem mais oportunidades atualmente? Os profissionais estão preparados e sabendo aproveitar?
 
Pela conjuntura atual do Estado do Paraná, que é um estado eminentemente agropecuário, temos cadeias produtivas como a do frango, suínos, bovinos de leite e de corte, piscicultura, sericicultura, apicultura, enfim todas as cadeias produtivas que compõem o agronegócio têm campo de trabalho para Médicos Veterinários e Zootecnistas. No entanto, pelo perfil do acadêmico que hoje ingressa nas faculdades a maioria é da área urbana, muitos são do sexo feminino. O perfil é de profissionais de visão urbana e consequentemente são profissionais que quando se formam, querem continuar nos grandes centros urbanos ou voltar a seus lares onde moram com os pais. Com isso a tendência é que esses profissionais acabem trabalhando com animais de companhia, abrindo consultórios, clínicas, pet shops... Esta é uma área que eu considero um pouco saturada no Paraná. Atualmente no Paraná, há 666 estabelecimentos ligados a consultórios, clínicas ou hospitais veterinários. É um número relativamente alto pelo número de animais e a população que temos no Paraná.
 
Por outro lado o agronegócio é crescente no Paraná e no País. O profissional que quer se estabelecer no agronegócio não pode pensar que vai ficar em grandes centros. As fronteiras agropecuárias estão migrando para o Mato Grosso, Goiás, Pará e Bahia. O profissional que tem a intenção de trabalhar neste mercado precisa se especializar, pois as empresas não contratam profissionais somente com a graduação para trabalhar no agronegócio. É uma área que exige um conhecimento mais aprofundado. O perfil que se exige hoje no mercado de trabalho não é só na área de conhecimento técnico, as empresas requerem profissionais que tenham espírito de liderança, que sejam bem formados, com fluência em língua estrangeira, que conheçam bem a área de informática, que possuam uma boa apresentação, que saibam trabalhar em equipe, resolver problemas e não que fiquem criando problemas. Enfim, profissionais que tenham perfil moderno de empresário, que tenha uma visão ampla da situação econômica e conjuntura do país e do mundo. A competitividade hoje em dia é muito grande e quanto maior a competitividade, mais o profissional tem de se destacar.
 
7. Há alguma área atualmente que está precisando de profissionais experientes e qualificados e está com dificuldades em encontrar?
 
Eu diria que todas as áreas precisam de profissionais competentes e bem capacitados, mesmo em clínica de pequenos animais, que eu acabei de dizer que já está saturado, sempre tem campo para profissionais competentes e esta é uma área em que hoje cada vez mais os profissionais estão se especializando. 
 
O setor do agronegócio é um setor crescente, o Brasil está produzindo cada vez mais alimentos para abastecer o mundo. O Brasil é o maior exportador de carne vermelha, exportando para 154 países. Isto mostra que é um campo muito vasto tanto para Zootecnista quanto para Médico Veterinário. De todos os setores, o agronegócio é abundante em trabalho, pois não atende apenas o mercado interno está também atendendo cada vez mais o mercado externo. 
 
Em todas as áreas eu diria que tem campo de trabalho, por exemplo, uma área pouco explorada no Paraná, mas que também tem um campo muito grande é a piscicultura de água doce. O nosso Estado tem todas as condições favoráveis para aumentar esta produção e produtividade que nós temos hoje. Talvez esteja faltando um programa governamental, as empresas investirem um pouco mais e logicamente abriria campo de trabalho para Médicos Veterinários e Zootecnistas. 
 
8. Como o senhor vê a atuação de Médicos Veterinários e Zootecnistas no grande movimento de sustentabilidade e salvação do planeta?
 
Este é um ponto que tenho enfatizado muito nas palestras que tenho proferido. O Médico Veterinário e o Zootecnista que não tiver a preocupação com o meio ambiente está correndo um sério risco de um dia ser incriminado em alguma lei de crimes ambientais. Não existe nenhuma atividade da Medicina Veterinária e da Zootecnia que não tenha relação com o ambiente. Todas possuem. É fundamental a inserção destes profissionais na questão ambiental, temos hoje uma maior preocupação pelo meio ambiente. É necessária a visão de sustentabilidade não só econômica, mas também ambiental, social, em todas as áreas. O profissional completo é aquele que enxerga tudo, não pode ter a visão estritamente técnica. Está na hora de todos nós pararmos para pensar nesta questão. No Paraná estamos pagando um preço muito alto por não ter tido esta visão no passado, explorações como a suinocultura, principalmente no Sudoeste do Paraná onde a situação se tornou muitas vezes irreversível, prejudicaram muito o ambiente. Hoje o produtor paga muito caro por isso. E o papel do Médico Veterinário e do Zootecnista é fundamental no sentido de orientar produtores rurais e empresários sobre os riscos ambientais de algumas atividades. Os profissionais têm a função de propor ações para tornar viáveis estas atividades de forma que não agridam a natureza.
 
Existe hoje um trabalho crescente na área de gestão ambiental e acho que todo Médico Veterinário e o Zootecnista deveriam ter uma disciplina durante a faculdade que trabalhe com esta questão de gestão ambiental. Não só tendo esta disciplina obrigatória, mas também ter uma discussão maior, um debate mais amplo dentro das faculdades.
 
Quem trabalha com consultórios, clínicas e hospitais veterinários deve ter preocupação com destino dos resíduos. Se o profissional for despreocupação e não elaborar um plano de gerenciamento de resíduos sólidos hospitalares ele comete um crime, se jogar produto hospitalar em qualquer lugar está cometendo um crime. Cada vez mais as normas ambientais estão ficando rigorosas e os profissionais devem estar atentos a isto. 
 
Fonte: Divulgação
9. Há alguma questão relevante que não abordamos nas perguntas e que gostaria de comentar?
 
Gostaria de deixar uma orientação aos profissionais e à sociedade como um todo, que o exercício da profissão é voluntária, ninguém é obrigado a exercer Medicina Veterinária e nem a Zootecnia. No entanto, a partir do momento em que se opta por ser um profissional é necessária a consciência da importância que este profissional tem para um país pobre como o nosso, no qual segundo o IBGE apenas 12,5% da faixa etária de 18 a 24 anos têm acesso ao ensino superior. Então, quem possui um diploma de curso superior num país como o Brasil é uma pessoa privilegiada. E esse privilégio deve ser retribuído à sociedade, porque muitos profissionais estudaram em escolas públicas, como eu, e foi ela quem custeou os estudos e quem o ajudou a chegar onde está. Quando o profissional possui um diploma na mão, tem de prestar serviços em benefício da sociedade. Se ele cometer um ato antiético é uma traição. Mesmo quem estudou em escola particular tem esta dívida com a sociedade, a qual também ajudou a pagar seus estudos. 
 
Se todos os profissionais, independente de serem Médico Veterinário ou Zootecnista, tiverem esta consciência de que têm uma dívida com a sociedade, talvez repensem um pouco mais antes de cometer qualquer ato, até muitas vezes ilegal, dentro da profissão. Temos que respeitar os 87,5% que não tiveram este privilégio e conduzir de forma ética a profissão, com seriedade. 
 
Então, dentro deste conceito eu gostaria de deixar este recado para todos, que errem menos, de preferência que não errem, e que sejam muito éticos no exercício da sua profissão.
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